...andava há anos a tentar comprar este mítico disco! Um verdadeiro best of dos anos 80 em Portugal...E eis senão quando, quase aos trambolhões, ele me cai no colo a preço de amigo...
BOA CENA!!
ALINHAMENTO:
01. Pop Dell' Arte - Sonhos Pop
02. Mler If Dada - L' Amour... Va Bien Merci
03. Anamar - Roda
04. Croix Sainte - We Build Cities
05. Jorge Ferraz - Ó Foucault, O Que É Isso De Chamarem...
06. João Peste & Acidoxibordel - Groovy Noise Dada Rock
07. PSP - Portugal Na CEE
08. Magudesi - Dança
09. Mário & Peter - Duas Árvores
10. Essa Entente - Lá Féria
11. Linha Geral - Hino À Nossa Luta
12. A Jovem Guarde - Levante
13. Grito Final - Ser Soldado
14. Grito Final - Bairro Da Fome
01. Mão Morta - Oub'Lá
02. João Peste & Acidoxibordel - Clio Software
03. White Buffalo - Better Out Of Here
04. Pop Dell' Arte - Pi Latão
05. Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre! El Pasao
06. Linha Geral - Ousadia
07. Anamar - Amar Por Amar
08. PSP - Fado Samba
09. Teléctu - Very Good Vibes
10. Tó Zé Ferreira com Rodney Wascha - More Adult Music
11. João Peste - Dim
12. Nuno Canavarro - Ultra Marina
13. Sei Miguel - Shark
14. Paquete De Oliveira / João Peste - Entrevista
15. Rede Soleri - Por Um Manifesto Ciber-Ecológico
...e para quem tiver ainda um bocadinho mais de paciência, deixo transcrita uma belíssima crítica, já com algum tempo, que foi publicada n' A Puta da Subjectividade, para perceberem melhor a minha satisfação :)
"A editora Ama Romanta surgiu, em Lisboa, na passagem da primeira para a segunda metade da década de oitenta e foi posta em marcha por João Peste, carismático vocalista dos Pop Dell'Arte, que pretendia lutar contra a censura camuflada que rádios e editoras infligiam sobre a música feita em portugal, motivada também pela crise do rock português, depois do boom do início da década.
O objectivo era reunir um conjunto de bandas independentes e editá-las, surgindo daí um movimento de Música Moderna Portuguesa, com liberdade criativa e estética, que reuniu um conjunto de pessoas ímpar, que formaram a denominada "geração ama romanta", que marcou definitivamente a música portuguesa de 1985 a 1991, pela rebeldia, originalidade e irrequietude demonstrada pela maior parte dos seus artistas.
Ama Romanta Sempre reúne vinte e nove temas, ao longo de praticamente cento e quarenta minutos, divididos em dois discos, que nos conduzem por pedaços belos desses anos perturbadores, acabando por ser uma versão revisitada e ampliada de Divergências, colectânea mítica lançada pela editora nos anos oitenta e apenas disponível em vinil.
O primeiro disco refere-se sobretudo aos dois primeiros anos de edição da Ama Romanta, abrindo as hostilidades com "Sonhos Pop", o hino inorgânico-orgânico dos Pop Dell'Arte, com João Peste a murmurar que "ainda tem um sonho ou dois". Perfeito para dar o mote a este disco de sonho(s), mais ou menos pop, que prossegue com "L'amour va bien, merci", na estreia de Anabela Duarte como vocalista dos Mler Ife Dada. Anabela sublime, como sempre, envolve-nos a meia luz, entre a doçura e a loucura do quarto cálido e dos lençóis de seda, da melhor canção, alguma vez feita em Portugal, em língua francesa.
Depois, temos Anamar a desbravar os caminhos do novo fado em "Roda" e os Croix-Sainte, uma das pérolas perdidas da Moderna Música Portuguesa, a trazerem até nós em "We Build The Cities" os dias escuros e cerrados num ambiente de caos urbano. a viagem prossegue com um devaneio surrealista de Jorge Ferraz Martins, seguido de "Groovy Noise Dada Rock", uma convulsão sonora tresloucada de João Peste & Acidoxibordel, projecto paralelo aos Pop Dell'Arte. Vítor Rua, dissidente dos GNR, recria com os PSP um dos hinos da sua antiga banda - "Portugal Na CEE" - e que viria a causar grande polémica no meio musical indígena, antecedendo duas faixas instrumentais: "Dança", de Magudesi, projecto experimental de Luís Desiderat, e "Duas Árvores", de Mário & Peter, um instrumental ambiental, com a guitarra a cruzar-se com uma flauta, carregada de pozinhos de magia e encanto. Os Essa Entente são o projecto que se segue, eles que acabaram por ser uma das bandas que viriam, mais tarde, a lançar um disco por uma multinacional. Em "La Feria" demarcavam as suas ideias e o seu espaço, que passava por uma actualização da música popular portuguesa, cruzando os Trovante dos primeiros tempos com os Sétima Lgião mais densos, contando com a vocalização muito própria de Paulo Riço.
Também presentes na primeira parte da colectânea estão os Linha Geral, um dos mais interessantes projectos perdidos dos anos oitenta. eram conhecidos como "os Joy Division portugueses", pelo ambiente escuro e carregado que criavam e pela voz perdida e angustiada de Carlos Manso, no seu registo invulgar. "Hino à Nossa Luta" foi o tema escolhido, podendo ser visto como um hino desta geração, por ser "o canto da esperança ... e da revolta". Os últimos três temas pertencem à Jovem Guarda - projecto do já falecido Luis Saraiva, que passou também pelos Pop Dell'Arte - e à banda punk Grito Final, com direito a duas músicas, onde dão vida a toda a sua postura interventiva e incisiva com a anti-militarista "Ser Um Soldado" e o socialmente crítico "Bairro da Fome".
O segundo disco da colectânea traz-nos temas mais ligados à segunda fase da Ama Romanta, sobretudo aos últimos anos de edição, no final da década de oitenta, contendo ainda dois originais gravados já no ante lançamento de Ama Romanta Sempre!: "Better Out Of Here", de White Buffalo, projecto de Nuno Tempero, que nos oferece um instrumental desconcertante e "Por Um Manifesto Ciber Ecológico", da Rede Soleri, projecto que une João Peste a Jorge Ferraz, que parte de um devaneio sónico para um discurso subitamente interrompido de peste, que alerta para a necessidade de criação de novas utopias apontando a ciber-ecologia como um dos caminhos possíveis.
Há também revisitas a bandas que aparecem no disco um: Linha Geral deslumbram com "Ousadia", entre o trapézio e a revolta incontida; Anamar em "Amar Por Amar", desbrava novamente os novos caminhos do fado, num cruzamento mais electrónico e denso que na faixa apresentada no disco anterior; PSP, de Vítor Rua, num "Fado-Samba", que nos desloca até às festas e romarias nortenhas, numa viagem colorida e alcoolizada, naquilo que poderá ser visto como uma antecâmara do que viriam a fazer mais tarde os Afonsinhos do Condado; e, finalmente, João Peste, que para além de Rede Soleri, reaparece com os Pop Dell'Arte - no clássico multi-lingue (ou non-lingue) "pi Latão", devaneio alucinante onde se cruzam uma selva instrumental e de colagens - com os Acidoxibordel - em "Clio Software", que nos relata uma viagem perturbadora pelo mundo das drogas interceptada por um ecrã de televisão, sem esquecer os novos caminhos digitais - e, finalmente, a solo - com "Dim", um delírio pomposo, escuro e sinistro, carregado de fantasmas.
A parte dois de Ama Romanta Sempre! é iniciada pelos Mão Morta, com "Oub'lá", um dos seus clássicos intemporais, que nos leva a viajar pelo universo corrosivo e cortante da banda de Braga, pleno de angústia urbana. Neste disco é possível encontrar "El Pasao", dos Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre, banda de Jorge Ferraz e Vítor Inácio, responsável por "Free Terminator", um dos melhores discos feitos em Portugal na década de oitenta, ainda por editar em formato digital. "El Pasao" é um instrumental delicado e choroso, entre o apaixonante e o demolidor, que nos deixa com vontade de mais.
Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com os seus Telectu, podem ser escutados em "Very Good Vibes", num experimentalismo hipnótico-delicado, ao que se segue "More Adult Music", de Tozé Ferreira, que cria uma paisagem sonora transcendente para envolver um texto lido por Rodney Wascha. Nuno Canavarro também está presente em Ama Romanta Sempre! com "Ultra Marina" - tema em que cruza o som de guitarras navegantes com vozes orientais - assim como o trompetista Sei Miguel, que em "Shark" oferece-nos um périplo claustrofóbico, entre fantasmas e tempestades.
Finalmente, o sociólogo Paquete de Oliveira - numa entrevista histórica a João Peste, em 1986 - alerta-nos, num documento sonoro importante, para o perigo das ditaduras culturais e para o novo fascismo suportado pela opressão intelectual, que fomenta a ignorância e a diminuição da capacidade críticas das pessoas.
Ama Romanta Sempre! é uma viagem alucinante por trabalhos geniais que geram no ouvinte um sentimento de saudade e de perda, pois há um fosso de uma década e meia, inultrapassável e irrecuperável, apesar de não se sentir na maior parte dos casos, porque o som permanece actual. Esta colectânea faz-nos também repensar e olhar para o actual momento da música (moderna) portuguesa. Onde é que estão estas pessoas? Onde é que estão os seus sucessores? João Peste, parafraseando Luchino Visconti, parece dar-nos uma pista: "é preciso que algo mude para que as coisas continuem na mesma". Assim foi. Até quando? "